quinta-feira, 24 de junho de 2010

DICAS DO BLOG: CONHEÇA NO SITE ONSPEED A SÉRIE "RETRATOS" E OUTRAS COISAS BEM INTERESSANTES

No site, através de fotos de pessoas anônimas achadas na rua o autor cria histórias fantásticas. Roubei uma e publico aqui e ainda faço a propaganda para este excelente site que venho seguindo atualmente. Clique aqui e visite, é muito bom!

RETRATOS I
Enquanto todos os primos e irmãos ganhavam a vida longe dali, Antônio tinha a certeza de que algum dia as coisas dariam certo para ele. Casou com quem amava, criou os filhos com o pouco dinheiro que ganhava com a vendinha da família e era feliz. Mas a vida dá lá seus tropeços. Com a morte da mulher, o abandono dos filhos crescidos – que por influências dos tios também migraram para a América – e uma solidão que não tinha tamanho nem descrição, Antônio sei viu sozinho, falido e sem muita opção. O lugar que antes chamava com orgulho de lar estava tomado de incertezas, e a vendinha que dera lucros não se sustentava mais. Do outro lado da cerca, um mundo novo e promissor mandava um convite irrecusável. Levado por um caminho traçado, desses que não se tem muito como escapar, ele foi. Na mala, roupas e lembranças brigavam por espaço. Chegou como todo clandestino: sem dinheiro, sem pátria, sem origem. Era latino, ponto. Assim como todos, percebeu aos poucos que ali ele não era ninguém. Já não era mais o “Seu Antônio da venda”, o “vizinho da casa verde”, o “marido de Dona Yeda” e pai de cinco filhos. Ali, nem sequer nome e sobrenome podia ter. Morava, trabalhava e sofria sem que ninguém o notasse. Os filhos já eram pais e um velho como ele já não tinha mais espaço entre os deslumbres de uma vida vendida. Sem alma, entregue à condição de invasor, percebeu que o preço que pagava por estar ali era abrir mão de ser quem ele sempre fora. Tomado de um conformismo raivoso, jogou para o alto as fotos e recordações do que algum dia lembrava ser. E foi ali, nas ruas de Nova York, que Antônio se deixou morrer. Como que impresso nas calçadas largas ficaram as reproduções de uma identidade perdida.
[As fotos da categoria RETRATO foram achadas em lixos e ruas e o fotógrafo Paulo Otero as guarda como arquivo de memórias esquecidas. O texto, por sua vez, escrito por Guti, é ficção ]

RETRATOS II
Amanda fugiu de casa antes de completar 20 anos. Como em um conto de Freud, contado por qualquer analista, seguiu o caminho da mãe, que, 18 anos antes, abandonou a filha na casa da avó. Ana não pensou no bebê e chutou tudo para trás por um amor que nem sequer virou a esquina. Como já tinha batido o portão, a casa estava definitivamente fechada para ela. Amanda cresceu em um lar de primos e primas mais velhos, fugindo das investidas deles e evitando as ordens delas. Também não tinha a figura do pai, que ninguém sequer viu a fuça. A idosa Dora, que já tinha visto de tudo em décadas de imigração, odiou a ideia de abraçar mais uma criança pequena, mas reservou um canto para ela na casa cercada de flores que mandou construir - e pontuada pelos espinhos de tantas verdades jogadas embaixo do colchão. Amanda foi embora sem se despedir de ninguém e sem homem para atestar um motivo. O paradeiro da mãe todo mundo sabe: vendeu o corpo no Porto de Santos e morreu de pneumonia no final dos anos 80 - há quem diga que foi uma das vítimas da doença feia da época. Amanda, como era de seu feitio, nunca mais foi vista. Ficaram os retratos e nenhuma saudade.
[As fotos da categoria RETRATO foram achadas em lixos e ruas e o fotógrafo Paulo Otero as guarda como arquivo de memórias esquecidas. O texto, escrito por Guti, por sua vez, é ficção]

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